Dizer algo assim é absurdo, afinal, “todo cuidado é pouco”, certo? Não é bem assim.

Ao aterrissar em Berlim, Alemanha, pergunto-me se há um exagero na fala das pessoas no que diz respeito ao terrorismo. “Será que corro riscos?”, pergunto-me. Saio da área de embarque e tenho um choque: o aeroporto está em péssimas condições. “Que decadência”, penso, “como será o resto da cidade?”.

Ao sair da sala de (des)embarque, vejo homens armados. As identificações em seus uniformes informam seus nomes e patentes; as armas assustam. Grandes metralhadoras desfilam nas mãos daqueles indivíduos. Apesar disso, as pessoas parecem estranhamente calmas diante da situação. Não há explosões no plano de fundo nem alarmes soando até onde posso perceber.

Fora do aeroporto, penso nas inúmeras vítimas de atentados nessa cidade. Já no táxi, cometo uma gafe: pergunto sobre o terrorismo e, claro, sobre o nazismo. Sob olhares pontiagudos, aprendo que os alemães abominam o período da história que diz respeito ao regime de Hitler e, mais ainda, se ofendem com esse tipo de pergunta. “Há muito mais sobre nós além dos campos de concentração!”, devem pensar. Sobre o terrorismo, escuto a informação de que não é tão ruim assim. Embora o taxista diga isso, “sei” que há mais e mais pessoas morrendo a cada dia por causa disso.

Nos Estados Unidos, palco das atenções por causa das torres gêmeas, por exemplo, 372 massacres aconteceram apenas em 2015. 475 morreram e 1,870 se feriram ao longo do ano por causa do terrorismo. Essa estatística foi deixada de fora na maior parte da campanha presidencial do país em 2016, mas um ataque menor numa cidade distante ganhou destaque nos discursos.

Contrapondo isso, no entanto, a diferença entre a imagem da Europa passada pela mídia internacional e a realidade não é, para mim, uma surpresa.

No Brasil, como nos Estados Unidos, a atenção dada ao terrorismo é impressionante. Não apenas isso, mas a reação da grande massa nas redes sociais é muito visível. Quem aí não lembra daquele filtro com as cores da bandeira da França nas imagens de perfil no Facebook? O medo, de fato, é parte da rotina de muitos, assim como a falsa empatia. Entre outros fatores, a forma como o assunto é abordado pela mídia e classe política (nesse caso, refiro-me ao resto do mundo, não ao Brasil, onde o assunto ainda é pouquíssimo citado pelos políticos) é responsável por isso. Para eles, é mais vantajoso martelar um ataque específico e dar um ar sentimentalista ao assunto do que falar em números e estatísticas reais.

Aliás, precisamos falar de fatos: a esmagadora maioria dos 372 ataques nos Estados Unidos não é motivada pelas questões internacionais que ouvimos falar frequentemente, mas por causas internas como preconceito e desigualdade. E você, inocente, achando que os grupos terroristas estavam – perdão pelo trocadilho – tocando o terror nos EUA, não é?

Por que nos importamos mais quando alguém é vítima de terrorismo do que de um motorista bêbado ou um grupo criminoso “comum”? A abordagem do assunto na mídia e política foi tão forte e transformadora nos últimos 5 anos que há, hoje, um debate quanto ao significado da palavra “terrorismo”.

Um problema sem solução

Se a mídia é a responsável maior para o que poderia ser lido como “pânico em massa” ou “pânico embutido”, é só a mídia parar! temos um problema complexo. Não é socialmente aceito – e nem seria sensato ou constitucional – que os poderes do Estado tentem censurar a mídia, ainda que haja um motivo plausível. Além disso, como se não bastasse, colocar a culpa inteira nos veículos de comunicação é, digamos, simplista. Repórteres, como nós, são humanos e têm, provavelmente, os mesmos instintos e tendência que o resto da população.

Uma dessas tendências é a de não conseguir mensurar grandes números. Não é que seja impossível, mas é muito, muito difícil realmente compreender o que um número como “1 milhão” realmente significa. A maioria das pessoas acha que entende, mas está enganada. Com isso, temos um outro problema: como fazer 209 milhões de pessoas (note que esse já é um número enorme e que você provavelmente não o compreende completamente) entenderem que o mais importante não é saber sobre os acontecimentos em si, mas os números a eles atrelados?

Se você ouve falar sobre alguém que foi atacado por um jacaré em determinado bairro, talvez fique receoso, mas se sua cidade tem, digamos, 2 milhões de habitantes, não faz muito sentido sair comprando botas com interior de aço para se proteger de jacarés, certo? Afinal de contas, foi um caso isolado, não? Se você morasse numa pequena comunidade afastada com um total de, não sei, 150 pessoas, é provável que começasse a olhar por trás dos ombros, pois “fulano” foi atacado por um jacaré. Quando se escuta sobre um acontecimento impressionante e absurdo na mídia, damos mais atenção ao fato em si e menos ao número a ele associado.

Uma cobertura constante e global por parte da mídia para acontecimentos como os supracitados implica, de certa forma, na aplicação do nosso já defeituoso senso numérico e estatístico a uma grande quantidade de notícias que nos dão a impressão de que “o terrorista está na próxima esquina”. O objetivo do terrorismo, muitas vezes, é causar medo. Por causa disso, hoje, um ato terrorista consegue atingir o seu objetivo muito mais facilmente do que conseguia há algumas décadas.

Dê uma olhada no levantamento estatístico do The Huffington Post e no artigo deles sobre esse assunto datado de meados de 2015, quando houve um aumento nos casos de terrorismo. Fica claro, agora, então, o que venho tentando dizer ao longo do texto: que ainda assim evitei multidões e olhei para os dois lados da rua. O quê, achou que eu andaria tranquilo?

Artigo publicado originalmente no Diário do Submundo.

Ao sair da sala de (des)embarque, vejo homens armados. As identificações em seus uniformes informam seus nomes e patentes e as armas assustam. Grandes metralhadoras automáticas desfilam nas mãos daqueles indivíduos. Apesar disso, as pessoas parecem estranhamente calmas diante da situação. Não há explosões no plano de fundo nem alarmes soando até onde posso perceber.

Fora do aeroporto, penso nas inúmeras vítimas de atentados nessa cidade. Já no táxi, cometo uma gafe: pergunto sobre o terrorismo e, claro, sobre o nazismo. Sob olhares pontiagudos, aprendo que os alemães abominam o período da história que diz respeito ao regime de Hitler e, mais ainda, se ofendem com esse tipo de pergunta. “Há muito mais sobre nós além dos campos de concentração!”, devem pensar. Sobre o terrorismo, escuto a informação de que não é tão ruim assim. Embora o taxista diga isso, sei que há mais e mais pessoas morrendo a cada dia por causa disso, certo?

Nos Estados Unidos, por exemplo, 372 massacres aconteceram apenas em 2015. 475 morreram e 1,870 se feriram ao longo do ano por causa do terrorismo. Essa estatística foi deixada de fora na maior parte da campanha presidencial do país em 2016, mas um ataque menor numa cidade distante ganhou destaque nos discursos.

Contrapondo isso, no entanto, a diferença entre a imagem da Europa passada pela mídia internacional e a realidade não é, para mim, uma surpresa. No Brasil, como nos Estados Unidos, a atenção dada ao terrorismo é impressionante. Não apenas isso, mas a reação da grande massa nas redes sociais é muito visível. Quem aí não lembra daquele filtro com as cores da bandeira da França nas imagens de perfil no Facebook? O medo, de fato, é parte da rotina de muitos, assim como a falsa empatia. Entre outros fatores, a forma como o assunto é abordado pela mídia e classe política (nesse caso, refiro-me ao resto do mundo, não ao Brasil, onde o assunto ainda é pouquíssimo citado pelos políticos) é responsável por isso. Para eles, é mais vantajoso martelar um ataque específico e dar um ar sentimentalista ao assunto do que falar em números e estatísticas reais.

Aliás, precisamos falar de fatos: a esmagadora maioria dos 372 ataques nos Estados Unidos não é motivada pelas questões internacionais que ouvimos falar frequentemente, mas por causas internas como preconceito e desigualdade. E você, inocente, achando que os grupos terroristas estavam – perdão pelo trocadilho – tocando o terror nos EUA, né? Isso sem falar nos casos em que não ficou completamente claro o motivo do crime, mas ainda assim o negócio é tratado como terrorismo.

Por que nos importamos mais quando alguém é vítima de terrorismo do que de um motorista bêbado ou um grupo criminoso “comum”? A abordagem do assunto na mídia e política foi tão forte e transformadora nos últimos 5 anos que há, hoje, um debate quanto ao atual significado da palavra “terrorismo”.

Um problema sem solução

Se a mídia é a responsável maior para o que poderia ser lido como “pânico em massa” ou “pânico embutido”, é só a mídia parar! temos um problema complexo. Não é socialmente aceito – e nem seria sensato ou constitucional – que os poderes do Estado tentem censurar a mídia, ainda que haja um motivo plausível. Além disso, como se não bastasse, colocar a culpa inteira nos veículos de comunicação é, digamos, simplista. Repórteres, como nós, são humanos e têm, provavelmente, os mesmos instintos e tendência que o resto da população.

Uma dessas tendências é a de não conseguir mensurar grandes números. Não é que seja impossível, mas é muito, muito difícil realmente compreender o que um número como “1 milhão” realmente significa. A maioria das pessoas acha que entende, mas está enganada. Com isso, temos um outro problema: como fazer 209 milhões de pessoas (note que esse já é um número enorme e que você provavelmente não o compreende completamente) entenderem que o mais importante não é saber sobre os acontecimentos em si, mas os números a eles atrelados?

Se você ouve falar sobre alguém que foi atacado por um jacaré em determinado bairro, talvez fique receoso, mas se sua cidade tem, digamos, 2 milhões de habitantes, não faz muito sentido sair comprando botas com interior de aço para se proteger de jacarés, certo? Afinal de contas, foi um caso isolado, não? Se você morasse numa pequena comunidade afastada com um total de, não sei, 150 pessoas, é provável que começasse a olhar por trás dos ombros, pois “fulano” foi atacado por um jacaré. Quando se escuta sobre um acontecimento impressionante e absurdo na mídia, damos mais atenção ao fato em si e menos ao número a ele associado.

Uma cobertura contante e global por parte da mídia para acontecimentos como os supracitados implica, de certa forma, na aplicação do nosso já defeituoso senso numérico e estatístico a uma grande quantidade de notícias que nos dão a impressão de que “o terrorista está na próxima esquina”. O objetivo do terrorismo, muitas vezes, é causar medo. Por causa disso, hoje, um ato terrorista consegue atingir o seu objetivo muito mais facilmente do que conseguia há algumas décadas.

Dê uma olhada no levantamento estatístico do The Huffington Post e no artigo deles sobre esse assunto datado de meados de 2015, quando houve um aumento nos casos de terrorismo. Fica claro, agora, então, o que venho tentando dizer ao longo do texto.

Mesmo sabendo disso, continuo olhando para os dois lados da rua e evitando multidões. E você, o que faria?

Imagem destacada: “Sunset at the 9-11 memorial”, por Dave Z. Licença C.C. 2.0

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Posted by:Amom Lins

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